terça-feira, fevereiro 28

Entrevista a João Galrão, escultor
«Gosto que não fiquem indiferentes aos meus trabalhos»

Foto: Pauliana

Deu uma nova vida às telas tradicionais, juntando-lhes uma nova dimensão. João Galrão, 30 anos, é um escultor da nova geração. Depois de alguma estabilidade em Portugal, gostava de internacionalizar o seu trabalho. Encontrar uma galeria lá fora seria uma boa notícia.

Despertou para as artes durante um curso de restauro que fez na Escola Profissional de Recuperação do Património, da Câmara de Sintra. Mas já antes tomara contacto com alguns materiais quando trabalhou numa oficina de pedra durante as férias escolares.
No início ainda tentou a pintura, mas depois rendeu-se à escultura. E assume: "a pintura é directamente responsável pelo meu trabalho actual. A certa altura percebi que dava maior importância aos materiais do que ao espaço. Actualmente uso as telas como um material de escultura".
Nos seus trabalhos, João procura transmitir "a contradição entre atracção e repulsa". E gosta "que as pessoas não fiquem indiferentes". Considera que faz um trabalho um pouco abstrato, mas assume que é influenciado por elementos como as paisagens ou os filmes. "A maior influência talvez venha directamente dos materiais, das suas consistências, das suas texturas", conta-nos no seu atelier em Covas de Ferro, Sintra, rodeado por meia-dúzia de peças em fase de acabamento.
Além do pó, muito pó, João vive rodeado de tintas, pincéis, máquinas dos mais diversos tipos, colas e outros produtos técnicos. E admite que normalmente escolhe os materiais "pelas suas propriedades, sobretudo a sua leveza", pois tem de ter em conta o peso final das peças.

As pessoas entendem-se através da arte

Na série «Presságios», composta por telas esticadas sobre molduras de madeira construídas com relevos, parece haver alguma vida dentro das peças. Habita-as "uma espécie de E.T., apesar de não pensar propriamente em monstrinhos verdes quando digo isto", conta-nos João. "As formas são apenas sugeridas, pois não se consegue ver o que as provoca. É uma espécie de revolta dos materiais, mas uma revolta animada por essa entidade alienígena desconhecida."
Muitas vezes reutiliza os resíduos da sua própria actividade. "Preocupa-me a questão ambiental, mas também me atrai o potencial que muitos materiais têm em termos de formas que me interessam. Às vezes começo a juntar coisas e fico surpreendido com as formas que daí resultam."
Como referência principal, cita Frank Stella, um pintor e escultor norte-americano representante do movimento neoconcreto. "O geometrismo abstrato interessa-me", diz.
A arte "é uma forma de entendimento entre as pessoas e as diferentes culturas. As pessoas entendem-se muitas vezs através da arte, desde os tempos dos primeiros desenhos nas cavernas".

A crise económica afectou as vendas

João Galrão considera que o curso avançado de artes plásticas que realizou no Ar.Co foi fundamental para a sua formação. "Foi muito importante, crucial mesmo para o que estou a fazer agora. Toda a minha construção enquanto artista vem de lá". E considera igualmente importantes as suas experiências internacionais, com exposições em S. Paulo, Londres e Valência. Diz que o ajudaram a ser conhecido, mas confessa que "não foram ainda suficientes" para garantir a sua internacionalização. "Isso só se consegue trabalhando com uma galeria".
E confessa que gostava de ser conhecido lá fora, porque isso também lhe permitiria sair de Portugal mais vezes. "Esta crise é horrível. Embora já tenha atingido uma certa realização, isso não enche a barriga", lamenta.
João diz que trabalha muito porque tem sempre exposições agendadas, como a próxima, em Junho, no Porto. Mas estes últimos meses têm sido complicados, com poucas vendas. Tem, no entanto, uma boa relação com os galeristas. "Trabalho com a Galeria Graça Brandão, no Porto, e com a Agência de Arte Vera Cortês, em Lisboa". Com a primeira tem um acordo de exclusividade, que além de significar que eles cobram 50% de todas as vendas, também implica que precisa da autorização deles para outros contactos. "Mas o saldo é excelente, pois desta forma consegui lançar-me mais facilmente. Há pouco tempo comecei também a colaborar esporadicamente com a Galeria Sete, de Coimbra."

Restauro só como influência

Das recordações da área do restauro diz guardar ainda algumas "influências em alguns processos de trabalho" que utiliza. Mas não pensa voltar a trabalhar nessa área. "É um meio que não me interessa e o trabalho é muito duro - como o das obras", diz.
O ponto alto da sua carreira foi a primeira exposição individual, no Porto, em 2003. "Foi muito importante e estimulante, pois mesmo antes de inaugurar a exposição já tinha vendido todos os trabalhos através da Galeria". Actualmente sente-se realizado profissionalmente "embora gostasse de vender mais e sobretudo de conseguir um contacto permanente com uma galeria no estrangeiro".
No futuro, João espera "que a conjuntura melhore e que o mercado recupere. No actual estado de coisas talvez não me seja possível viver apenas da escultura. Mas mesmo que tenha de procurar outra actividade em part-time, o meu objectivo principal será sempre este. E podem contar com muito trabalho e empenho".

Luís Galrão

Informação sobre o artista:
ARTfactsNET
Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão
Galeria Graça Brandão

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